terça-feira, 23 de agosto de 2016

Eu estou aqui

É querer demais mau? É assim tão mau? Não é essa a nossa natureza, o nosso objetivo, ao fim de contas? Amar o máximo que conseguirmos, darmos a alma, despirmo-nos de nós. Eu achava que sim. E ainda acho, ainda o faço.
Para quê conter? Para quê dar espaço, se temos tão pouco tempo para aproveitar?
É difícil não dizer nada, sim, ficar à espera em sôfrego, querer ser desejada com a mesma intensidade com que suspiramos. Eu não quero que ele se esqueça de mim.
Eu estou aqui.
Para pouco no início, apenas umas palavras trocadas, uns sorrisos escondidos, mas quem sabe no que poderá dar?
Para isso não podemos hesitar ou andar de pé atrás, certo? Temos que avançar com tudo o que temos, arriscar, fazer-nos ouvir e ver.
Eu estou aqui!
De coração aberto, dissecado, cru. Ainda que me custe, que me aterrorize, pois não quero sair magoada. Mas ele anseia por ti, por nós, por uma oportunidade, por um fio de esperança. É um risco que estou disposta a correr. E se resultar? Talvez se lutar, eu consiga e ele não se esqueça.
Eu estou aqui!

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Para-Para-Paraíso

Hoje tive mais uma prova de que Portugal é realmente bonito.
Senti-me fora deste país, como que se por magia tivesse viajado para uma ilha paradisíaca.
Uma alta montanha coberta de um verde intenso abraça-nos por trás, abrindo os seus braços para uma extensão incrível de mar em diferentes tons de azul: azul claro, azul esverdeado, azul escuro, que se alteram consoante a posição dos nossos olhos.
A água, translúcida, permite que os nossos pés apareçam por baixo do nosso nariz, os dedos enterrados na areia fria, coberta com pequenas pedras que balouçam com a maré.
Com apenas a cabeça de fora, o frio gelado da água envolve-nos até aos ossos, mas a paisagem em nosso redor fervilha-nos a alma.
Um outro mundo surge diante dos nossos olhos; as pessoas somem, o mar ascende, reluzente com o reflexo do sol a bater na ondulação, formando uma imagem digna de um postal. Excepto que é tudo real, realmente bonito.
O corpo flutua naquela água salgada e o som do oceano profundo entra-nos pelos ouvidos. Não há nada senão o contraste do verde com o azul e o crepitar do sol na água.
É o paraíso. É Portugal.

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Fecho os olhos

Fecho os olhos. Imagino.
O teu toque suave pairando sobre a minha pele, mal lhe tocando, apenas o suficiente para iniciar um friozinho que desce pelo meu corpo, eriçando-o.
Abro os olhos. Olhamo-nos, e os teus dedos sobem pela curva do meu pescoço até ao rosto, onde ficam por uns segundos, o toque ainda suave.
Engulo em seco, a respiração forçada pelo teu olhar, doce mas tão intenso. Não aguento e sou a primeira a deixar descair os olhos. O teu indicador sustém o meu queixo no ar, mantendo o nível do meu olhar no teu.
Sorris para mim. Aproximas-te meio passo, mas o meu corpo responde-te e, sem eu notar, avanço a outra metade em direcção a ti.
O teu peito chega-se perto e o meu eleva-se numa inspiração mais profunda. Estás logo ali; o meu olhar preso ao teu, sem que eu tenha outra hipótese.
Até que sinto a tua outra mão a subir-me pela anca, puxando-me mais para junto de ti, como se já não estivéssemos perto o suficiente. O ar sai dos meus pulmões e estanco ali, coberta em ti, no teu toque, no teu cheiro, nos teus olhos, nos meus olhos fixos na tua boca.
Sinto a tua mão reposicionar-se, acariciando a minha face no seu percurso, e eu inclino-me nela. O teu polegar desenha círculos na minha bochecha, devagarinho, aparentando ingenuidade.
Mordo o lábio, hesitante. Quero-te.
A minha mão passa pela tua, ainda no meu rosto, tão quente, e uma vez mais os meus olhos se fecham.
Desta vez não o impedes.
Inclinas-te, apenas os meros centímetros que faltam, e perco-me em ti, no teu beijo, no teu calor que me envolve como um cobertor numa noite fria de Inverno.
Não quero sair dali. E não saio.
Tu também não.

terça-feira, 2 de agosto de 2016

Romantismos de fim de tarde

Amor à primeira vista. Acontece frequentemente em filmes, daqueles românticos, com um casal apaixonado mas apartado, que se junta no fim, depois de ultrapassar uma imensidão de obstáculos que enervam o expectador; daqueles filmes com músicas que aquecem o coração; que nos fazem sonhar ainda de olhos abertos; que nos fazem suspirar; que nos arrastam para lugares e fantasias apenas reais no nosso pensamento.
Ridículo, isto não acontece, pensamos nós no fim do filme, ainda que, bem lá no fundo, desejemos, com tudo o que temos, que um dia seremos nós o protagonista de tão belo romance.
Admito que sou uma dessas pessoas - que menospreza esses filmes mas que os devora com a mesma intensidade; que suspira não sei se de raiva se de ânsia por um amor daqueles, tão puro, tão perfeito ainda que com imperfeições.
Só falta o amor, pois namorado perfeito já todas temos. Hipotético vá, com os traços físicos e psicológicos já cuidadosamente pensados e aperfeiçoados, aglomerados num autêntico modelo pronto a ser aplicado e criado numa fábrica, tal é a profundidade dos pormenores.
Talvez a fábrica seja dispensada. O mundo é enorme; há-de haver o tal que nós imaginámos, certo?
Até que...
Ele aparece, inesperado, lindo, perfeito, mas... A sério? É ele? Mas é tão diferente. E é, em algumas coisas, mas aquece-nos o coração, força-nos um sorriso nos lábios, transporta-nos para um mundo que até aquele momento só existira num sonho bonito, e um suspiro solta-se, mas desta vez não estamos a ver um filme.
Desta vez...

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

"Desenferrujar"

Por vezes, dou por mim a relembrar os tempos em que a minha escrita fluía tão suavemente quanto a ponta de uma caneta a acariciar o papel quando se encontra nova e na sua estreia.
Dá prazer escrever com uma caneta cuja tinta ainda tem muito para dar.
Dá prazer escrever quando nós próprios sentimos que temos muito para dar; a mente um turbilhão de ideias, os dedos inquietos sobrevoando as teclas ou agarrando em sôfrego uma caneta que parece não escrever à velocidade com que chovem histórias no pensamento; a mão avança, escrevendo palavra atrás de palavra, sem que a mente consiga acompanhar o que se desenrola numa folha em branco.
Ah... Eram bons tempos! Não sei se algum dia irei conseguir retomar tal pedalada, agora que as pernas chiam de cada vez que tento reiniciar o trajecto.
O mal destas coisas é parar, pois dá asas à ferrugem que rasteja pela cabeça acima sem que demos conta.
Olhem para mim agora - a letra começa a entortar, empurrada pela vizinha de atrás e puxada pela da frente; as palavras nascem com a rapidez que lhes é permitida pelo desembaraço da mão e unem-se a outras formando frases que até fazem sentido (só algum).
Será este o novo troço do caminho há muito abandonado?
Só eu saberei.