Hoje fui ao médico. Fazer um exame para despistar uma doença que eu sabia que não tinha mas que insisto em dizer que tenho, assim só de vez em quando. Quando me dá na cabeça, quando me lembro, quando tenho demasiado tempo livre para pensar. Porque pensar é terrível! Principalmente para pessoas como eu, com este síndrome irreparável, colado tipo lapa e que morde quando acha que já passou tempo suficiente sem ir ao médico.
O meu médico já se ri de mim.
Sinto-me o Pedro, como no Pedro e o lobo, excepto que me chamo Rita e o lobo vive dentro de mim.
Nem a minha mãe me leva a sério - penso que nunca levou, na verdade - mas é mãe. Tem de aturar estes meus devaneios constantes e acompanhar-me no desespero sem causa.
Sempre disse que herdava os males de toda a gente na minha família, seja o joanete no pé, dentes do siso ruins, ossos um pouco deficientes, o meu belo bom humor, ou esta mania que as doenças me perseguem. Mas esta mania... é quase um orgulho!
Quando se deparam com esta minha "hipocondríaquice", como eu lhe chamo, a primeira pessoa que me cai no pensamento é o meu avô materno, o Zé. Era pior que eu, coitadinho.
Uma vez, íamos todos entrando em pânico. O sol quente de Verão requer cremes protectores contra os raios Ultravioletas, nocivos para a saúde. Aquele que veio na mala de viagem também bronzeava, ou assim o dizia. Ora, acabadinhos de chegar de uma belíssima manhã de praia, eis senão quando o meu avô repara que a sua mão direita se encontra assim um pouco para o amarelada. Estranho, certo? Para alguns, um pouco, talvez. Para "nós", ui! Cartão vermelho com direito a voo directo para o médico mais próximo.
Devo confessar que não foi necessário. Acabou-se por descobrir que a causa da mão amarela não era mais do que o resultado de muitos dias a pôr um creme que afinal bronzeava mesmo!
Rimo-nos todos que nem uns perdidos e o alívio reinou no peito do meu avô, tenho a certeza.
Há qualidades e qualidades, defeitos e defeitos, mas quando me deparo numa situação de pura "hipocondríaquice", penso, "Epá, é hereditário!", e sorrio.